Eu estou aqui e
Salinger vai acertando as palavras por mim. Estar numa ilha é diferente, qualquer coisa perdida entre o verde e o azul. Estou na
Fajãzinha, numa casa branca, a antiga casa do padre, uma casa de 1904 onde, segundo o Sr. Miguel, nunca morreu ninguém. A casa tem o seu interior em madeira, não falo em envernizados nem nada disso, falo em madeira, madeira que solta farpas, a madeira seca, a madeira que tem qualquer coisa a ver com o tempo. O vizinho é o Sr. Duarte, o Sr. Duarte das 19 espingardas (nem te peço para tentares imaginar uma pessoa com os seus cento e muitos quilos e outros tantos de idade cuja sua posição de descanso é de cabeça para baixo e rabo para cima). Depois de jantar, por volta da meia-noite, a caminho de casa, passei pelo nº5, a porta do noctívago Sr. Duarte que me falou das suas 19 espingardas. Como é solteiro, as espingardas são como filhas, 9 estão no cofre nº1, outras 9 estão no cofre nº2 e todas as 19 espingardas têm uma Sra. de Fátima gravada na coronha. Dia 28 de Fevereiro foi à caça de coelhos (uma das 4 únicas vezes que foi à caça), contou que deu 4 tiros e matou 2 coelhos, dia 13 de Março matou 1 coelho, dia 2 de Dezembro deu 14 tiros e matou 12 coelhos, e na quarta caçada contou que tinha ido só lá a cima ver as ovelhas da vizinha e quando vinha para baixo matou outros 5 coelhos que não os quis para si. Por fim, desvendando o segredo, contou-me que a 19ª espingarda dorme com ele à cabeceira para assustar os mais malandros. O Sr. Duarte nunca saiu das Flores.